O PODER DA CLASSE D
capítulo quatro

ESTILOS DE VIDA

ESTRATÉGIA DE PRAZER

  • O consumidor de baixa renda se sente vítima de um processo de deterioração que foge ao seu controle e não tem perspectiva de melhora a curto prazo. Ele parece estruturar a sua vida cotidiana dentro de uma mentalidade da sobrevivência.
    Seu primeiro mandamento é o de que "o sobrevivente tem que aprender a andar com pouca bagagem", o que pode significar a supervalorização de pequenos prazeres do dia-a-dia como:

Um amigo e uma boa prosa

Um bar e uma cerveja gelada

Sair com a família, visitar parentes

Um cigarro, uma profunda tragada

Um bom pagode

Uma TV e um aparelho de som

Uma boa comida

Relacionamentos afetivos

Relaxar

COMO SE DIVERTIR, PASSAR BONS MOMENTOS

  A/B
%
C
%
D
%
Bater papo com amigos/ conhecidos 22 25 34
Passear/ ir ao parque 24 25 33
Ir a barzinho/ tomar cerveja/ beber 25 16 21
Sair para dançar/ samba/ festa/ danceteria 23 21 21
Ir ao shopping/ ver lojas 19 13 18
Jogos 26 25 16
Bola/ futebol/ basquete/ vôlei 20 14 11
Snooker/ bilhar 4 7 4
Baralho/ dominó 2 7 3
Bingo 3 4 2
Outros jogos 1 1 1
Namorar/ paquerar/ sair com o namorado/ transar 16 9 12
Comer fora/ ir a restaurante/ pizzaria 15 9 11
Ir à igreja/ quermesse 2 4 8
Ver TV/ filmes em vídeo 5 12 7
Ir ao cinema/ teatro/ show 20 7 6
Ouvir música/ rádio 4 5 5
Gostar de viajar/ ir à praia/ campo/ camping 30 15 5
Andar de bicicleta 3 3 4
Empinar pipa 2 3 4
Brincar com criança/ filhos/ sobrinhos 2 7 3
Pescar 3 2 2
Ler revistas/ livros/ jornal 3 1 2
Fazer churrasco com familiares/ amigos 10 1 1
Outros - 1 2

Base: Amostra (300 casos)
Fonte: Perg. 14

AQUI É O MEU LUGAR

  • O sentimento de exclusão vivido no "mundo da rua" parece compensado por uma supervalorização do mundo da casa/família, sendo os filhos os grandes depositários da esperança de um dia ele poder se sentir incluído na sociedade mais ampla.
  • Nesse sentido, pode-se dizer que o imaginário desse consumidor é dominado pela utopia de uma segunda chance de ser feliz, onde a ascensão profissional do filho resgata a estrutura do conto de fadas: uma história que começa mal, com sofrimento, mas termina com final feliz.
  • Conforme a tendência mundial que revela que, por falta de segurança e proteção, as pessoas tendem-se ao "encasulamento doméstico", o consumidor emergente também procura tornar sua casa um refúgio de prazer onde encontra supridas suas prioridades básicas.

A CASA COMO O ESPAÇO POSSÍVEL DE PRAZER

  • Os instantes de prazer de cada um, no espaço da casa, podem ser definidos como o espaço da liberdade. Esses momentos correspondem a uma espécie de "festa", onde o descontínuo (a pausa) se sobrepõe ao contínuo, que é a "batalha pela vida" na rua, o universo da polêmica, do desgaste e da luta. Através desses pequenos prazeres, pode-se rastrear o percurso gerativo de um prazer maior: o prazer de poder nada fazer, usufruindo da liberdade de estar só, de "ficar sossegado", de ser dono do próprio tempo sem precisar dividir o pouco espaço da casa com outros da família. Para então poder "viajar" através da leitura, penetrar na aventura ou obter descontração através das novelas e filmes da TV, o relaxamento e vazão aos sonhos, a música.
  • A casa aparece como o lugar privilegiado desses momentos de prazer, o que aliás não poderia ser diferente, já que o ritmo diário do consumidor emergente se concentra num "casa/ trabalho/ casa". A casa é onde convivem o cotidiano, como rotina e como festa, o trabalho como descontração ("fazer uma horta") ou o não-fazer-nada, não ter obrigação.

UM INSTANTE DE PRAZER

  • Ao relatarem o que lhes dá mais prazer de fazer quando dispõem de um tempo livre com a casa só para si, os consumidores emergentes destacam coisas muito concretas como:

- Dormir.

- Ouvir música ou escutar rádio (deitado na cama/no último volume/ tomando cerveja).

- Assistir televisão (deitado no sofá/ comendo pipoca/ com as pernas para cima).

- Ler deitado.

  • Destaca-se o valor da música como um fazer catártico ou terapêutico, que ajuda a pensar a própria vida e aliviar as suas dores.
  • Nesse nada fazer, lambiscar e bebericar podem funcionar como simulação de ação.
  • A casa como espaço privilegiado do prazer sobrevaloriza os equipamentos de lazer e as facilidades domésticas como prioridades de desejo de consumo, que criam possibilidade de uma relativa homogeneização entre as classes.

MOMENTOS DE MAIS PRAZER EM CASA QUANDO TEM UM TEMPO SÓ PARA SI

  A/B
%
C
%
D
%
Ver TV/ Filme em vídeo 42 46 53
Ouvir música/ rádio 37 33 36
Dormir/ dormir e esquecer da vida 14 10 20
Ler revistas/ jornais/ livro 20 19 18
Trabalhos domésticos 16 21 13
Cozinhar/ fazer bolo/ culinária + sofisticada 5 10 7
Arrumar a casa/ mudar os móveis 12 9 6
Outros 7 2 2
Comer guloseimas/ doces/ sorvetes 4 1 6
Escrever cartas/ fatos da vida 5 2 6
Brincar/ cuidar dos filhos/ netos 2 4 6
Jogar damas/ dominó/ carteado/ futebol 1 1 5
Cuidar de si/ cuidar do cabelo/ higiene pessoal 8 5 4
Jogar videogame/ fliperama 4 3 3
Artesanato/ tricô/ crochê/ bijuteria/ balão/ pipa 5 5 3
Beber/ tomar cerveja/ ir a barzinho 4 5 3
Namorar/ curtir o marido 4 5 2
Fazer lição/ estudar 3 3 2
Cuidar/ brincar com os cahorros/ animais 3 2 2
Lavar/ arrumar o carro 6 4 2
Desenhar/ pintar 4 2 1
Meditar/ pensar na vida 3 - 1
Mexer/ operar computador 5 1 -
Outros - 1 2

Base: Amostra (300 casos)
Fonte: Perg. 13

O INSTANTE DE PRAZER DE ...

  • José, o porteiro

    Gosto de ouvir som no último volume, mas a minha mulher quando está em casa fala: "Zé, abaixa aí!". Eu gosto mesmo quando ela sai de casa, aí eu fecho a porta, a janela, e o som fica abafado, não sai. A música sempre distrai mais.
  • Wagner, o feirante

    Ver TV sossegado, sem que ninguém me amole ou fique falando alto na cozinha. Gosto de ficar sem mulher e sem filho, sem ninguém. Eu tenho uma hora que quero ficar sozinho, que não quero ver ninguém.
  • Tica, a empregada doméstica

    Dormir e escutar rádio é gostoso de fazer. Ficar ouvindo rádio deitada acaba dormindo. O que tem de gostoso eu não sei, eu sei que é bom.
  • Patrícia, balconista de locadora de vídeo

    Assistir televisão, deitada no sofá da sala, comendo pipoca.
  • Rita, dona de casa

    Eu gosto de ficar parada, sem TV, sem rádio, sem nada, com as pernas para cima. Fico à vontade e penso coisas normais, dá para relaxar mais.

O CARÁTER MAIS ETÉREO DA FELICIDADE

  • Ao falar sobre felicidade, o consumidor emergente assume um tom mais solene do que quando fala de seus momentos de prazer. O discurso da felicidade tem um tom quase religioso e traz, subjacente, a idéia de merecimento (prega valores como honestidade, sinceridade).
  • Talvez porque a própria palavra felicidade lhe remeta a "coisas maiores", mas menos tangíveis como Deus, saúde, paz, harmonia, amor e prosperidade, seu discurso como os votos de felicidade que se transmite na passagem de ano: "Adeus, Ano Velho, Feliz Ano Novo, muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender."
  • Outra diferença observada entre o relato de momentos de prazer e o discurso da felicidade: o primeiro opera no plano concreto do fazer (e da criatividade); o segundo no plano mais abstrato e mais distante do ter e do estar, cujo alcance é sempre uma busca, uma batalha. Por isso, Maria José, dona de casa, recusa falar em felicidade, porque a "desejaria apenas se fosse eterna".
  • O contentamento/a satisfação parece ser um estado intermediário entre a fugacidade do prazer e o distanciamento da felicidade. José, o porteiro, seria um homem contente se pudesse exercer o seu direito de escolha e "cortar o cabelo num lugar que corta bem e não ter que cortar no lugar mais barato, onde o cara mete a tesoura".

FELICIDADE É...

  • Ter tudo que a gente quer. Não, felicidade é ter tudo que a gente pode ter. Felicidade é eu, minhas filhas, com meu marido
    (Tica, a empregada doméstica).
  • Ter uma família, ser bem casada, uma casa, um carro, ser estável, não quero, não preciso ter carro importado. O que faz uma pessoa feliz? Muita paz e dinheiro.
    (Diuliana, a digitadora).
  • Ser feliz é poder sair, comprar as coisas que a família precisa e as crianças pedem.
  • Não existe felicidade, só momentos felizes.
    (Maria José, dona de casa).
  • Para mim, felicidade é sempre um buscar, tendo amigos, amando a família e tendo respeito pelos outros.
    (Deise, a enfermeira).
  • Felicidade para mim é todo dia estar de pé, ter saúde, poder trabalhar todo dia. O que traz felicidade é trabalhar. Sem trabalho, eu fico triste. O trabalho me traz alegria e esperança. Não sei dizer como se faz para alcançar a felicidade. Cada um batalha pra ter a sua. (Wagner, o feirante).
  • Felicidade é uma coisa maior. A primeira coisa que eu lembro quando fala em felicidade é de Deus, apesar de não ser crente nem nada. Felicidade é seu bem estar e o bem estar é você estar alegre. (Fabiano, office-boy).
  • É a gente estar bem com a gente mesmo e com as pessoas que estão do nosso lado, viver em harmonia. O que traz a felicidade? Dinheiro e bastante sinceridade. Ser feliz é estar satisfeita, ter tudo que deseja. (Patrícia, balconista de locadora de vídeo).
  • Felicidade é bem estar,é estar contente, ter êxito na vida, ter família, ter saúde e ter dinheiro. (Eder, o camelô).
  • Felicidade é estar bem, em paz, com saúde. Para alcançar a felicidade, é preciso trabalhar e buscar Deus (Celina, a recepcionista).
  • Felicidade é estar em paz com Deus. É acordar assim e agradecer a Deus por esse dia. Felicidade é paz na consciência, é você estar em paz com a vida. Para alcançar a felicidade, primeiro que tudo é preciso ser honesto com você e com os outros" (Soncella, operário).

MOMENTOS DE FELICIDADE NO DIA-A-DIA

  A/B
%
C
%
D
%
Harmonia em família/ sem brigas/ família reunida 23 35 33
Ter saúde/ família/ filhos com saúde 17 23 34
Trabalhar/ não ter aborrecimentos no trabalho 29 29 31
Ter dinheiro/ não ter dívidas/ ter condições 18 13 20
Estar com filhos/ crianças/ cuidar dos filhos 13 19 19
Estar com o marido/ namorado/ namorar 18 14 17
Estar com amigos/ conversar/ sair com amigos 22 12 15
Ouvir música 7 7 8
Praticar esporte/ jogar bola 7 7 7
Fazer trabalho doméstico/ limpar/ lavar/ cozinhar 6 4 7
Passear/ viajar 5 4 6
Assistir TV/ novelas 4 6 5
Dormir/ descansar 6 5 3
Ir a barzinho/ danceteria 4 2 3
Fazer compras/ ir ao supermercado/ shopping 6 5 2
Receber notícias/ carta de parentes/ amigos 4 2 2
Assistir futebol/ quando o time ganha 1 1 2
Acordar bem disposto/ cedo 4 3 1
Estudar/ fazer cursos 5 1 -
Outros 4 7 1

Base: Amostra (300 casos)
Fonte: Perg. 12

RESUMINDO O MODELO DE FELICIDADE ...

  • A felicidade, para o consumidor emergente, vai do concreto para o abstrato, da casa, saúde, emprego e dinheiro à amizade, paz, amor, alegria e sucesso. A felicidade está estreitamente ligada ao espaço da casa e à instituição família e à revitalização das crenças e raízes. A felicidade se encontra, no seu sentido mais profundo, no bem estar, e esta é a síntese entre o possível e o sonhado, entre a fantasia e a realidade.
  • Importante: não se abandona o sonho, pois é ele que viabiliza a vida ao viabilizar sensibilidade, a capacidade de se maravilhar diante do belo (expresso na música, nos reluzentes carros, nas "viagens" promovidas pelos filmes e livros, nas viagens para lugares aprazíveis, em hotéis com "mordomias", ou ainda, no prazer de adquirir produtos, marcas possíveis como ponto de partida para se chegar lá ­ lá é o sucesso").
  • A linguagem se cobre de concretude, deixando transparecer uma ideologia social determinada: a conquista pelo esforço e determinação. O discurso não encerra uma explicação última da felicidade e, sim, uma materialidade própria ligada às necessidades: uma boa alimentação, um lar confortável, um bom emprego, relacionamentos de amor e amizade, num equilíbrio de vida sem exageros, onde retira-se alegria das coisas mais simples e comuns da existência.
  • A felicidade é, pois, a totalidade do sucesso que se pretende e que contém em seu cerne um limite. No discurso, há alguma coisa de ambição como há de modéstia, e ambas estão aderentes àquele limite interno imposto pela condição financeira e pela autocensura.

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